O palco era um tablado improvisado em uma igreja do subúrbio e a luz fraca vinda de velhos refletores. No meio daquele brilho hesitante, eu estava ali com minha voz, um instrumento de poder ímpar, no começo tímida, mas logo se transformou em um trovão de adoração, capaz de mover o ar e acalmar as tempestades internas de quem a ouvia.
Mas fora daquele momento sagrado, a minha vida era uma luta constante contra uma névoa fria. Desde cedo, o preconceito me perseguia. Cresci em um ambiente onde a fé era rígida, o meu estilo de cantar era poderoso demais e minhas emoções viscerais eram vistas com desconfiança. "Essa menina canta como se estivesse em um show de rock, não no altar", cochichavam. A falta de recursos materiais era um fardo visível: sapatos rasgados e vestidos emprestados, o ônibus para o ensaio era sempre um desafio.
O maior desafio, contudo, morava dentro de mim. Os ecos dos julgamentos e a pressão da pobreza formaram um caldo tóxico que desencadeou a depressão, a ansiedade e os pavorosos ataques de pânico. Haviam dias em que a ideia de sair de casa era como tentar escalar um muro de vidro. Minhas cordas vocais, meu maior presente, pareciam amarradas num nó na garganta, não pelo medo do público, mas pelo medo de mim mesma.
Em uma noite particularmente escura, após um ataque de pânico paralisante no meio de um culto pensei em desistir. Olhei-me no espelho rachado do meu pequeno quarto e vi apenas o cansaço. A minha voz de trovão parecia ter se calado. Chorei, um choro silencioso, desesperado. Foi ali, na beira do abismo, que a força da minha fé e a chama da minha vocação reacenderam.
Percebi que minhas lágrimas - as que caíam em silêncio, as que vieram com os ataques de pânico, as que eram fruto do preconceito - não eram de fraqueza, eram a matéria-prima da minha arte. Foi quando tomei uma decisão radical, não cantaria mais para agradar a homens ou para esconder minha dor, cantaria a verdade e louvaria ao Senhor Jesus.
No próximo culto ao subir o palco, senti que algo estava diferente. Meu corpo tremia, não de medo, mas por uma energia contida. Quando abri a boca, a melodia veio envolta em uma vulnerabilidade crua. A letra era sobre luta, sobre sentir o chão sumir. E, em um ponto da música, minha voz falhou momentaneamente, não desafinei, mas por um soluço que atravessou o diafragma. Era uma lágrima audível, uma rachadura na perfeição, um soluço transformado em nota musical.
Mas, em vez de um tropeço, aquela falha se tornou um Trovão. O público, acostumado a vozes polidas e impecáveis, foi arrebatado. Eles não ouviram uma cantora, ouviram uma alma em batalha. Aquele momento de fragilidade revelada, aquela lágrima ressoando na voz de trovão, conectou-me com cada um que carregava em sua alma uma dor. As pessoas começaram a chorar, não de tristeza, mas de reconhecimento e alívio pelo mover do Espírito Santo.
A notícia daquele culto tremendo se espalhou. Logo, eu estava cantando em igrejas maiores, mas sem nunca mudar minha essência. O preconceito continuava a existir, as dificuldades financeiras eram uma realidade e os transtornos psicológicos não sumiram como num passe de mágica, mas agora, eles eram parte do meu testemunho de vida. Nunca escondi minhas lutas, sempre as coloquei no altar do Senhor.
A "Lágrima na Voz de Trovão" se tornou meu título não oficial. Era a prova de que a maior força não reside na ausência de dor, mas na coragem de cantar com ela.
Anos depois, eu, Naira Paz, tornei-me uma das vozes mais respeitadas no cenário musical gospel. Quando olhava para trás, via os sapatos rasgados, as noites de insônia e o medo avassalador. Mas agora, quando minha a voz atinge o seu ponto mais alto, eu sei que a potência não é apenas talento, é o eco de cada queda superada, a melodia teimosa de uma alma que se recusou a ser silenciada pela escuridão do preconceito. Deus havia curado minhas feridas, havia transformado a cicatriz mais profunda em majestosas interpretações de lindos louvores.
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