Viver o chamado de Deus na Terra — aquilo que no hebraico compreendemos como Avodat, o serviço que se mistura com a adoração — nunca foi sinônimo de uma jornada isenta de cansaço ou de pressões. Pelo contrário, quanto mais nos aproximamos do cumprimento do nosso propósito, mais o cenário ao nosso redor parece se tornar complexo e desafiador. No entanto, é justamente no limite das nossas forças humanas que se revela o maior paradoxo da fé cristã: a nossa fraqueza é a plataforma para o aperfeiçoamento do poder de Deus.
Quando as circunstâncias tentam nos fazer retroceder, a nossa mente e o nosso coração enfrentam um embate diário de entendimento. A grande questão que todo servo precisa responder em primeiro lugar é: a qual lei decidiremos servir? À lei da carne, pautada no entendimento puramente humano e limitado, ou à lei de Deus, fundamentada no entendimento espiritual?
O apóstolo Paulo descreveu essa batalha com maestria em sua carta aos Romanos (7:18-24). Ele reconhece que, na carne, não habita bem algum e que existe uma guerra interna constante entre o querer fazer o bem e a fraqueza humana. Mas o segredo revelado por Paulo é que, segundo o homem interior, o nosso prazer deve estar na lei de Deus. Servir ao entendimento espiritual significa tirar os olhos das nossas limitações físicas e emocionais e firmar os pés exclusivamente sobre a Palavra daquele que nos chamou.
O segundo grande perigo na caminhada cristã é a maledicência e o esgotamento que nascem quando passamos a confiar nos sentimentos humanos e no braço da carne. O profeta Jeremias (17:5-8) nos traz um alerta severo e, ao mesmo tempo, uma promessa gloriosa. Aquele que deposita sua confiança nas capacidades humanas torna-se como a tamargueira no deserto: seca, infrutífera e incapaz de perceber quando o bem chega. Por outro lado, o homem que confia no Senhor e faz d'Ele a sua esperança é comparado à árvore plantada junto às águas. Ela estende suas raízes até o ribeiro. Quando o calor da provação vem, ela não teme; no ano da sequidão e da crise, ela não se afadiga e nunca deixa de dar o seu fruto.
Por fim, precisamos compreender em terceiro lugar que o que nos sustenta na caminhada não são as condições estruturais, financeiras ou a lógica dos homens. O que nos basta é a Graça — o favor imerecido e bendito de Deus. Na segunda carta aos Coríntios (12:9-10), o próprio Cristo responde ao apóstolo em seu momento de maior vulnerabilidade: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
A força humana, por si só, é um sinônimo exato de falha e de limitação. Mas a verdadeira força do vocacionado nasce da fé inabalável em Deus e no descanso de que a Sua Graça nos cobre. Quando abrimos mão de lutar com as nossas próprias armas e passamos a operar pelo Entendimento Espiritual, somos revestidos de uma autoridade que não vem de nós. É por isso que, mesmo com o coração pesado ou o corpo cansado, o profeta pode declarar com convicção: quando estou fraco, aí é que sou forte. Não pare, não desista e não confie no seu próprio braço; a Palavra que te sustenta é fiel para te levar até o fim.
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