A reflexão apresentada por AP Antônio Carlos da Silva, presidente da OMMEB e jornalista, toca no cerne do debate sobre a modernidade e a pós-modernidade. Para aprofundar, é necessário examinar as raízes e as implicações de cada termo, especialmente no contexto dos valores e instituições (religião, família, educação) citados na sua análise da tensão entre "Desconstrução x Construção".
1. As Raízes da Crítica Desconstrutiva
O termo "desconstrução" origina-se na filosofia de Jacques Derrida e, em seu sentido acadêmico original, não é sinónimo de destruição. É, antes, um método de análise que visa expor as hierarquias binárias (bem/mal, masculino/feminino, tradição/progresso) e os pressupostos implícitos que sustentam um sistema de pensamento. O objetivo é mostrar como o termo "privilegiado" da binariedade depende da subordinação do termo "não-privilegiado."
Contudo, no discurso social e político, o termo é adotado e transformado em um sinónimo de desmantelamento ideológico. Os alvos dessa desconstrução social, como listados na reflexão — o caráter, a fé, os princípios, a família tradicional — são percebidos como as estruturas que definem a ordem social e moral.
A Desconstrução da Tradição: Quando a desconstrução social mira a "história" ou as "tradições milenares," ela busca questionar a narrativa dominante que frequentemente foi escrita pelos grupos no poder. Argumentos como o "racismo" e a "reparação do passado" atuam aqui, sugerindo que as estruturas construídas (constituições, instituições) foram erguidas sobre exclusões e injustiças, e que, portanto, necessitam de ser refeitas ou demolidas para incluir os historicamente marginalizados.
O Risco Percebido: O medo expresso na reflexão é o de que, ao expor as falhas das fundações, o movimento acabe por derrubar a casa inteira. O resultado temido é o Niilismo (a crença na ausência de valor ou verdade objetiva) ou o Caos, abrindo espaço para ideologias autoritárias como o comunismo ou a anarquia, que seriam meros instrumentos de poder e não de justiça.
2. A Base da Filosofia Construtiva e a Lei Natural
A reflexão evoca uma tradição filosófica que remonta à Grécia Antiga e ao pensamento judaico-cristão, onde a "construção" social se baseia em Princípios de Lei Natural e Direitos Inerentes.
Fundamento da Democracia: A democracia, neste sentido construtivo, não é uma invenção política recente, mas um sistema que visa proteger direitos humanos universais e inalienáveis. Sua base filosófica é que existem verdades imutáveis (como a dignidade, a honra, e a família como núcleo) que a legislação deve proteger, e não criar ou destruir.
A Estabilidade como Pilar: A ideia de que "uma sociedade não pôde ser desconstruída em detrimento ao outra ou a utopia" sublinha o valor da estabilidade e da continuidade. A Constituição e as tradições são vistas como contratos sociais testados pelo tempo que oferecem previsibilidade e segurança, e só podem ser alterados através de reformas incrementais (construção) e não por via revolucionária (desconstrução total). A crítica é que a busca por uma "utopia" (um lugar perfeito que não existe) justifica a destruição do que é bom e real, gerando mais injustiça do que a que se pretendia corrigir.
O Critério da Universalidade: A afirmação de que "a democracia constrói direitos a todos" define a construção como um projeto universalista. Ela não se destina a anular a fé de um grupo em favor de outro, mas a garantir o direito à fé de todos. Qualquer movimento que anule um direito fundamental em nome de uma ideologia é, por definição, não-democrático e não-construtivo.
3. O Paradoxo da Mudança Social
O ponto mais complexo é o paradoxo de que toda construção de um novo direito é frequentemente percebida como a desconstrução de uma velha norma.
Por exemplo, a construção do direito de voto para as mulheres (um ato democrático construtivo) foi percebida por muitos na época como uma desconstrução da "tradição milenar" de liderança patriarcal. De forma similar:
Construção de Igualdade Racial: Exige a desconstrução da supremacia branca institucionalizada.
Construção da Liberdade Religiosa: Exigiu a desconstrução do poder absoluto de uma única religião estatal.
A chave, como a reflexão sugere, não está em paralisar a crítica, mas em distinguir a crítica destrutiva da crítica reformadora. O desafio é garantir que as ferramentas usadas (sejam elas racismo, reparação ou ideologia) sejam, de facto, direcionadas para construir mais direitos e dignidade para a humanidade—e não para substituir um sistema de exclusão por outro.
A construção de uma sociedade exige tanto a coragem de criticar as falhas (desconstruir o erro) quanto a sabedoria de preservar os fundamentos éticos (construir sobre o que é justo). O debate em curso é, essencialmente, sobre qual é a linha divisória entre esses dois imperativos.
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