Doenças cardiovasculares matam mais de 17 milhões de pessoas por ano no mundo. Em entrevista exclusiva, especialista explica como identificar os sinais que separam a vida da morte em emergências médicas.
Por: Redação Folha Apostólica News
Direção Editorial: Antônio Carlos da Silva
As emergências médicas não escolhem hora ou lugar. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo, ceifando mais de 17,5 milhões de vidas anualmente. No entanto, a desinformação ainda é um dos maiores obstáculos no momento de salvar uma vida. Você saberia diferenciar um infarto de uma parada cardíaca? Saberia identificar rapidamente os sinais de um Acidente Vascular Cerebral (AVC)?
Para esclarecer as informações fundamentais sobre primeiros socorros, triagem hospitalar e prevenção, o Folha Apostólica News conversou com um renomado médico especialista em emergências cardiovasculares e neurologia de urgência.
Folha Apostólica News (FAN): Muitas pessoas confundem infarto com parada cardíaca. Qual é a diferença clínica e prática entre as duas situações?
Médico Especialista: Essa é uma das confusões mais comuns e perigosas. Em termos simples, baseados nas diretrizes da American Heart Association (AHA), o infarto é um problema de "encanamento", enquanto a parada cardíaca é um problema "elétrico".
No infarto agudo do miocárdio, o fluxo de sangue para uma parte do coração é bloqueado (geralmente por um coágulo). O coração continua batendo, mas o músculo sofre por falta de oxigênio. Já na parada cardíaca, o coração para de bater subitamente devido a uma falha no sistema elétrico. A pessoa perde a consciência e para de respirar na hora. Todo paciente em parada cardíaca precisa de reanimação cardiopulmonar (RCP) imediata, enquanto o infartado precisa de socorro médico urgente para desobstruir a artéria antes que evolua para uma parada.
FAN: O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é outra emergência onde o tempo é crucial. Como leigos podem identificar que alguém está sofrendo um AVC ao seu redor?
Médico Especialista: No caso do AVC, costumamos dizer na neurologia que "tempo é cérebro". Quanto mais rápido o atendimento, menores as sequelas. Existem dois tipos: o Isquêmico (quando um coágulo bloqueia o fluxo de sangue no cérebro) e o Hemorrágico (quando há o rompimento de um vaso e sangramento no cérebro).
Para a identificação rápida, usamos uma adaptação da Escala Pré-hospitalar de Cincinnati, conhecida no Brasil pelo acrônimo SAMU:
S (Sorriso): Peça para a pessoa sorrir. Se um lado do rosto entortar ou paralisar, é um sinal de alerta.
A (Abraço): Peça para ela levantar os dois braços como se fosse dar um abraço. Se houver perda de força e um dos braços cair, é um sinal.
M (Música): Peça para a pessoa repetir uma frase simples ou cantar uma música. Preste atenção se a fala está arrastada ou confusa.
U (Urgência): Se qualquer um desses sinais estiver presente, ligue imediatamente para o 192 (SAMU).
FAN: Estatísticas mostram que as mulheres possuem uma taxa de mortalidade alarmante em paradas cardíacas e infartos. Por que isso acontece?
Médico Especialista: Infelizmente, é uma realidade documentada por periódicos científicos da área. As mulheres têm uma probabilidade significativamente maior de morrer após um evento cardiovascular porque seus sintomas de infarto frequentemente são atípicos. Enquanto o homem geralmente relata a clássica dor esmagadora no peito que irradia para o braço esquerdo, a mulher pode apresentar falta de ar, dor nas costas (região inferior), dor na mandíbula, náuseas, vômitos e fadiga extrema. Muitas vezes, esses sinais são confundidos com estresse ou problemas gástricos, o que atrasa a ida à emergência. Nunca se deve ignorar dores súbitas e persistentes, especialmente na região do tronco e pescoço.
FAN: Quando o paciente finalmente chega ao hospital, como é decidida a prioridade do atendimento?
Médico Especialista: A imensa maioria das urgências no Brasil e no mundo utiliza o Protocolo de Manchester, que é um sistema de Classificação de Risco baseado em cores para garantir que os casos mais graves sejam atendidos primeiro, independentemente da ordem de chegada.
Funciona assim:
Vermelho (Emergência): Risco imediato de morte (ex: parada cardíaca, AVC em curso). Atendimento em 0 minutos (imediato).
Laranja (Muito Urgente): Risco severo. Atendimento em até 10 minutos.
Amarelo (Urgente): Condição grave, mas estável. Até 60 minutos.
Verde (Pouco Urgente): Casos menos graves. Até 120 minutos.
Azul (Não Urgente): Casos que deveriam ser tratados em postos de saúde. Até 240 minutos.
FAN: Qual a sua principal recomendação para os leitores do Folha Apostólica News hoje?
Médico Especialista: A prevenção continua sendo a melhor medicina. Conhecer a função de órgãos vitais como os rins — que filtram o sangue e regulam a pressão —, manter um estilo de vida ativo e realizar exames periódicos é fundamental. Mas, acima de tudo, dissemine o conhecimento. Saber a escala do AVC (SAMU) e a diferença entre os graus de urgência pode fazer de você o elo que salvará a vida de um familiar.
Fontes Médicas e Científicas Consultadas para esta Matéria:
Organização Mundial da Saúde (OMS): Relatórios Globais sobre Doenças Cardiovasculares (CVDs).
American Heart Association (AHA): Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care.
Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC): Diretrizes sobre Infarto Agudo do Miocárdio e Doenças Cardiovasculares em Mulheres.
Academia Brasileira de Neurologia (ABN): Protocolos de atendimento pré-hospitalar ao Acidente Vascular Cerebral.
Grupo Brasileiro de Classificação de Risco: Diretrizes do Sistema de Triagem de Manchester.
Comentários: